Mas desde quando a regra tem que ser sensível?

No disputadíssimo clássico entre Palmeiras e Corinthians, realizado no último domingo em Presidente Prudente, Cléber Wellington Abade, árbitro do jogo, foi severamente criticado, tanto por técnicos quanto por comentaristas. Contudo, nem todas essas críticas possuem razão.
Deve-se admitir que Abade não obteve uma de suas melhores arbitragens. O jogo foi bastante pegado, e ele não agiu com firmeza suficiente em algumas situações, principalmente no que diz respeito a atitudes de jogadores e técnicos. Excluindo essa falta de firmeza e ainda algumas interpretações erradas de faltas e cartões, o árbitro cumpriu seu dever.
Mano Menezes reclamou, Luxemburgo reclamou; aqui, nada de novidade. Suas críticas tinham fundamento na questão que citei acima, em que Abade se deu mal. Aliás, o próprio árbitro deixou os técnicos falarem muito e seus atos de resposta às reclamações deles resumiam-se em apenas alguns acenos de "menos". Caberia muito bem uma expulsão de uns dos técnicos.
Porém, a crítica que mais me impressionou e me espantou foi a do comentarista de arbitragem da Globo Arnaldo Cézar Coelho. A primeira foi a respeito de uma suposta falta sobre Ronaldo na entrada da grande área, que não ocorreu. Se observarmos direito o lance, vamos que o jogador coloca o pé na frente do pé de Ronaldo para tirar a bola desse, que acaba chutando a perna do jogador palmeirense e caindo no chão. Nada a marcar. Mas, essa até que dá pra perdoar.
A argumentação espantosa de Arnaldo foi em relação aos cartões amarelos que Abade aplicou em jogadores do Corinthians (Ronaldo, Dentinho e Felipe). Após o gol, Ronaldo se dirigiu ao alambrado que separa as arquibancadas do campo e agarrou-se nele, sacudindo-no, juntamente com outros jogadores alvinegros, como Dentinho. Tal atitude, além de ter esquentado a torcida alvinegra de um modo difícil de ser controlado pela polícia e feito tal torcida também subir no alambrado, não apenas danificou a estrutura de proteção, como também rebentou os apoios do alambrado, fazendo toda a estrutura ao redor cair. Enfim, a torcida do Corinthians já é difícil, e vem um jogador e provoca essa atitude? E se os torcedores resolvem invadir o campo, de tão "excitados" que estavam? Bom, Arnaldo criticou a atitude do árbitro de dar cartão amarelo a esses jogadores que provocaram "apenas" a destruição do alambrado, alegando que o gol do Ronaldo é um acontecimento global e chamou o árbitro de insensível. Ora, então quer dizer que se o Pelé voltar a jogar e der um soco em um adversário ele não pode ser expulso por que sua volta é um acontecimento global? Francamente, não existe isso na regra. A regra se aplica a todas as situações e o árbitro tem que colocá-la em prática assim como ela está escrita.
Erros podem ser aceitados quando há uma boa justificação para eles; contudo, existem algumas situações corretas que são consideradas como erro, por conta de fatores como fama, ibope e dinheiro. A fama e a importância de algum acontecimento não modificam a regra, Sr. Arnaldo Cézar Coelho. Tal como o Sr. diz, a regra é clara, e ela existe para ser obedecida. Aplica-se um cartão amarelo para jogadores que sobem no alambrado e comemoram de maneira exagerada e acabam quebrando a estrutura? Sim. Então acabou. Não importa se seja Ronaldo, Pelé, Washington ou Edmilson. Atitudes exageradas e anti-desportivas devem ser punidas e parabéns a Abade por ter cumprido a regra como ela é, pelo menos nessa decisão. Regra sensível? Aqui na Terra não.

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